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A inutilidade útil do conhecimento, Victor Hugo Nicéas


Criança morta, Cândido Portinari

Por Victor Hugo Nicéas


O mundo surtou. As pessoas se isolaram. Os países se fecharam. E eu me pergunto: pra quê? A resposta torna-se bastante óbvia face a nossa atualidade. O salvar vidas parece falar mais alto que o dinheiro. Um reflexo da realidade repetida, uma peça contemporânea do que ouvimos falar, do que outrora já passamos e sobrevivemos. A história nos traz fatos demonstrativos de como agir perante o "novo", adquirimos este conhecimento muitas vezes sem se importar e caímos nos mesmos erros dos nossos pais. Não porque queremos, mas pelo simples fato de não termos vivido, e por isso tentamos nos educar. A educação nos molda para sermos melhores, para refletirmos sobre os afazeres, um aprender difícil, porém pacífico, pois não se educa ninguém a base do "choque", nem as novas, nem as velhas pessoas.

Sim, como dito, até mesmo aos mais velhos cabe educação, mesmo àqueles que já viveram o passado contado, mesmo estes, que já viveram situações de horror, são capazes de isolarem em suas mentes o repugnante, fazendo-as em parte esquecer, repetir e clamar pelo mesmo mal que fora vivenciado, gritando como se isto fosse bom, ludibriando-se de realidades inexistentes. Fazemos isto repetidamente em nossa recheada história humana. Confesso que quando pessoas clamam por situações desastrosas, apenas cogito duas hipóteses: ou estão ali a solicitar aquilo por puro mau-caratismo ou simplesmente pela insegurança que possuem, por todo o medo que nutrem em si, causado pelo constante bombardeio "desinformativo" que incita um surto de polarização política para tudo. Sim, o meu país enlouqueceu. "Por favor, torturem-nos!" É o que ouço ser sussurrado em alto e bom som por lábios de conhecimentos vazios. É o temor que impele-os ao inimaginável, a realidade tornou-se surreal, o futuro enfim passou a ser enxergado como incerto, mas ao invés de acolhermos a inevitabilidade disto, optamos pelo receio e a incapacidade do observar.

Somos cegos que enxergam, mas não sabem como andar, somos detentores de conhecimentos que não sabemos aplicar. Queremos o "bem" sem saber seu significado. Em prol do melhor, pleiteamos pelo pior. Abraçamos uma ficção antiga que nos envolve e esgana. A história quando narrada não é uniforme, nem sequer pode ser verdadeira, pois a verdade exata só foi conhecida por quem viveu o período, os fatos contados, e mesmo assim não o é uniforme, devido as vivências distintas que cada um nutre em si, possuindo variantes internas que pessoas transmitem através das suas palavras para seus sucessores, de forma bastante particular, para se apoiarem e se guiarem na vida. Colocamos nos ensinamentos aquilo que somos, que fomos e seremos, nada é imparcial.


O estudo do que passou pode gerar conhecimento, algo de extrema importância, mas este de nada serve se não for observado com cautela e sabedoria. O mero conhecimento sobre acontecimentos não faz com que as pessoas projetem com precisão a dificuldade do cenário d'outrora, que sintam como realmente foi tudo, isto só a vivência ensina, o sentir na pele sem imaginação. Mas, (in)felizmente uma hora ou outra a vida nos leciona esta matéria, nos traz de volta a realidade, aprendemos com as dores infringidas e acabamos por perceber a nossa inutilidade útil do constante aprender.

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