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As dores do mundo, Victor Hugo Nicéas


La dolorosa, José Camaron Boronat


*Texto por Victor Hugo Nicéas



Furto sem subtrair o título do livro do meu querido Schopenhauer, faço quase um empréstimo sem devolução, não para tirar dele o triunfo das percepções, mas para usar deste triunfo como meu macio conforto para o que se sucede. E, apesar do título, o conteúdo é próprio, ao menos é crendo nisto que escrevo. A frase é forte e ao mesmo tempo abrangente, engloba todo um mundo que se digladia. Mistura numa só sentença os amantes do sangue e os buscadores da paz. Todos sofrem, seja pelas ações, pensamentos ou simplesmente por estarem vivos, mesmo que tentem negar tudo isto. Normal, não é? Como não sofrer com as dores do mundo? Abrimos as pestanas do cimento em que vivemos e enxergamos caos. As vezes paro, e olho mais além e, lá no fundo, parece que o sol sorri em olhos esbugalhados. Na verdade, espero que isto seja um sorriso iluminado e não um vislumbre de espanto.

O mundo vulgarizado, e pense nele como um sujeito dotado de vontade, precisa do sofrimento para se manter existente e este mundo dá permanência a isto através dos miseráveis de caráter que somos, dão aos que desejam a balbúrdia, com salivas de deboche, o que é preciso para darem continuidade à vontade vulgar. Eles incitam, nós acatamos. Eles dizem que isso é normal e nós acreditamos. Não porque queremos, mas porque satisfaz uma parte nossa que também gosta do conflito, que gosta e se delicia com ações que nada servem. Conflitos, como digo sempre, são dualidades forçadas a se enxergarem opostas, são dois corpos que possuem uma única cabeça (essência) e que precisam viver em conjunto harmoniosamente. Mas, da harmonia fez-se o caos e, acham que qual dos dois é mais prazeroso para nosso intelecto animalesco? Estar em harmonia ou satisfazer conflitos por meio de ações desnecessárias? Acho que não preciso nem responder.

Baterei sempre na tecla da inexistência dos opostos, pois crer em oposição da dualidade é se acostumar com o embate, e se acostumar com isso, é ser mera peça de xadrez a espera de abater ou ser abatido. São estas ideias de "o outro que erra, não eu", de "tudo está ruim por causa dele, não de mim", são estas ideias que apenas valem como combustível de manipulação e do controle. A política faz isso perfeitamente, fez o mundo acreditar que ela própria se resume a uma dicotomia de potências mundiais, mas quem detém o verdadeiro poder por detrás da máquina estatal precisa disso, precisa vestir outrem de vilão para vender o seu próprio cachorrinho como herói. E, em nome de uma crença messiânica de estupidez, satisfazemo-nos com a política vulgar, fruto de uma vontade vulgarizada. Acostumamo-nos com a ausência da moralidade e terceirizamos ela para então seguirmos. Pensar é difícil, melhor seguir o som do sino de quem nos promete ração.

Política não se resume a isto, somos animais políticos e não somos isto porque nos vinculamos a um lado ou outro do vinil partidário, somos isso pelo nascimento em âmbito coletivo, pela sociabilidade. Sem dúvida o ato político mais nobre e profundo é o de estar vivo. Viver em coletividade requer muito tato e preocupação sobre si mesmo e o outro, por mais que nem sempre isto aconteça. Mas é algo sempre preciso nas relações, seja por pura genuinidade ou pela (in)desejada polidez. E foi em nome desse caos e dessa falsidade conhecida que alguém me perguntou: como posso eu viver se vejo injustiças pelo mundo? Fome, morte, miséria... Ódio destilado por uns para a sua plebe, almejando convocá-los futuramente para um conflito em sua defesa. Como viver assim? - É, não dá para julgar, não é fácil.

Aqui poderíamos adentrar os tortuosos caminhos do conceito do que é justo, mas muito já foi feito a esse respeito e, confesso, de formas fantásticas. Assim como no início, furtarei sem subtrair uma lógica que amo, a do grego Anaximandro, interpretado por um professor que um dia tive. Ele dizia, em outras palavras, que todo sofrimento era justo, sofrer satisfaz a justiça, mas toda ação que finde este sofrimento também o será. O senso de justiça, nesse sentido, abraçaria tudo o que nos envolve, fazendo de cada dor uma dor necessária, mas que pode, e deve, deixar de existir. Cada um vive seu próprio inferno, talvez o de quem me perguntou isso seja sofrer pelo que não pode fazer, pela sensação de impotência sobre o mundo, mas isto não torna o sofrimento alheio justo ou injusto num viés humano, apenas ressalta o que a vida é, um todo necessário com uma verdade quase inalcançável. Transcender o nosso próprio inferno fará o mundo não parecer tão feio e a partir daí, seremos capazes de ações conscientes mais eficazes. E nisto, meus queridos, consiste o mais puro ato político: entender as dores do mundo, não as dores dos outros, mas as nossas primeiro.



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