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As súplicas vazias de homens vazios, Victor Hugo Nicéas


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Saturno devorando seu filho, Peter Paul Rubens

Sempre que vejo pessoas organizadas em movimentos político-partidários, clamando para que um terceiro faça algo que eles não possuem coragem de fazer, eu penso: que idiotas eles são. Estão ali sendo incentivados a se sentirem intelectuais e, em regra, abraçam isto com o fervor da emoção, preenchendo seus vazios com estas movimentações. São idiotas, não por desejarem o melhor para si, mas por acharem que terceirizar suas ações e que somente medidas coletivas hierarquizadas serão necessárias para alterar a realidade de uma sociedade. Imaginem que o governo mais democrático do mundo fosse instaurado na Índia, em um país com uma desigualdade social abissal, estruturado em um sistema de castas e com tantos problemas que não cabem aqui neste texto levantar; vocês acham mesmo que o comportamento dos indivíduos, a mentalidade deles iria alterar genuinamente? No máximo o que existiria seria o sufocamento das ideias atuais, mudando o comportamento, mas mantendo a velha casaca agasalhando a mente.


Lembremos que uma sociedade é constituída por indivíduos, é a unicidade que se une enquanto coletividade. Por isso as mudanças mais importantes para um povo não decorrem unicamente de cima para baixo, de quem governa para o governado, mas principalmente requer uma mudança de comportamento e de mentalidade, as verdadeiras mudanças ocorrem, nesta estrutura piramidal, de baixo para cima. Políticos são homens médios retirados da massa, se nenhum político presta, tenha a certeza de que isto é o reflexo de uma sociedade doente, uma sociedade que não sabe o que é o bem ou mal, o belo ou o feio, ou simplesmente o que é melhor para si mesmo.


Estas pessoas quando vão as ruas gritam com vozes secas, como o esguicho sonoro de alguém que sufoca em seu próprio vomito, ecoando sobre a essência da vida, sem forma, cor ou sequer importância. O tempo destrói tudo, disse alguém, e é verdade, ele esmaga tudo o que é vazio, conduzindo o zumbido à inexistência. Os amantes da poesia que agora me leem, certamente já perceberam onde quero chegar. Sim, no inferno.


Here they receive

The supplication of a dead man’s hand

Under the twinkle of a fading star

Ter adjetivado tais pessoas como “idiotas” talvez tenha sido um erro, mas saibam que o fiz por pena, por ser algo que suaviza o que eles realmente são: são homens ocos, vazios de si mesmos que perambulam pela terra na esperança de se depararem com uma rosa multifoliada, com uma estrela perpétua e alcançarem a salvação. Estes são os suplícios desesperados destes seres. T.S. Eliot ao descrever os hollow men descreveu o homem comum, medíocre e vazio ainda vivo. O inferno nós críamos em vida através da projeção das nossas próprias fraquezas e tenho a certeza de que se ela tivesse rosto, enxergaria de soslaio tais pessoas, com a face em rugas de tristeza, pois estariam vendo seus filhos

[…] not as lost

Violent souls, but only

As the hollow men

The stuffed men.


Estas pessoas, de qual lado for, já deixaram de amar a si mesmos há muito tempo, desejam o melhor através do pior, jogam para outrem a responsabilidade de fazerem a diferença, e não levantam um dedo sequer em prol da mudança, a personare fecha a boca e ressoa o murmúrio do vazio silêncio de dentro de uma lágrima que salta ao chão e logo é pisoteada. Aquilo que mais importa na vida é atemporal, imparcial e belo, mesmo que muitas vezes doa sentir o seu diálogo na pele. Compreender e trazer isto para sua própria realidade, trará liberdade e paz para cada indivíduo.


Mas talvez o idiota seja somente eu, pois em um mundo fundado em dicotomias, a paz, o bom e o belo nunca irão existir, ou melhor dizendo, nunca serão buscadas por quase ninguém. Aquilo que é pacífico não deve surgir do caos, do choque das oposições, mas única e exclusivamente da vontade genuína de viver sua própria vida, pois dualidades não são opostos, mas sim duas cabeças de um único corpo que precisam do equilíbrio para viver em conjunto.


“Do conflito chega-se a outro conflito, ou poderei dizer contenda, caso não agrade a repetição da palavra que define a vagueza repetitória para onde o embate leva. Toda guerra conduz a outra e nisto, por Zeus, a história comprova” *



Tudo o que visa trazer equilíbrio através de uma tensão de corda, será sempre falho, seja agora ou em mil anos, pois esta força não é constante, mas apenas gera parca estaticidade para ambos os lados, é uma força paralisante que uma hora alguém com fraco semblante irá se cansar de gerar, trazendo à tona o triunfo do seu rival, a sua morte temporária e por fim o seu retorno em momentos futuros. Este foi o ciclo que criamos para viver, este foi o inferno que inventamos para nós, este foi o lugar sem forma ou cor que escolhemos para nos cegar e dançar uma ciranda infantil em torno de uma grande poça de sangue.


Here we go round a prickly pear

Prickly pear, prickly pear

Here we go round a prickly pear

Until 5 o’clock in the morning.


Infelizmente é isto que escolhem, infelizmente é assim que vivem tais pessoas, infelizmente é desta forma que tudo vai acabar para eles, como lágrimas que somem junto as gotas de chuva, todos serão esquecidos, esmagados pelo tempo.




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* https://www.anthrofilosofia.com/post/o-esc%C3%A1rnio-dos-hom%C3%BAnculos-victor-hugo-nic%C3%A9as-1

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