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O escárnio dos homúnculos, Victor Hugo Nicéas


Dois sátiros, Peter Paul Rubens

*Texto por Victor Hugo Nicéas


Do conflito chega-se a outro conflito, ou poderei dizer contenda, caso não agrade a repetição da palavra que define a vagueza repetitória para onde o embate leva. Toda guerra conduz a outra e nisto, por Zeus, a história comprova. Povos germânicos pisoteados se insurgiram contra a Roma antiga, assim como os conquistados pelos Persas não queriam apenas serem calados por atos alheios. A subjugação de um povo derrotado humilha, arranca a dignidade da carne, e da alma, daquele que se ajoelha. Mesmo que os conquistadores sejam exímios machiavellici, é possível que uma hora ou outra as bandeiras de conquistas sejam arrancadas com mãos escravas e fincadas de volta no peito de quem as enfiou. Olho por olho, dente por dente.


É em nome da famigerada liberdade de ser, que o horror perdura. Conflitos, em regra, geram vencedores e perdedores, quem vence almeja a manutenção do título, e quem perde quer vingança, proclamada em nome da liberdade de também dominar. O oprimido sente a necessidade de oprimir para mostrar ao outro o quão igual ele é. Um ciclo vicioso que pode ser observado na história de nossas guerras e, principalmente, no convívio social. O abusador sexual tende a ser alguém que outrora fora abusado, assim como em uma conversa banal, o ser humano tende a querer ser o possuidor da razão e ser detentor da última voz a falar. Assim como Eco, esta é, em geral, a nossa maldição.

Não culpemos a punidora Hera pela nossa falha de caráter, diferente daquela Ninfa, o fazemos pelo egoísmo que nos assola, não uma mera atuação da natureza bondosa, mas daquela que prejudica a vida no acariciar do ego, que beija-nos a pele em alegria e diz: fazes bem, meu querido, és o melhor. A humanidade sempre foi assim e continuará a ser até que percebamos isto em nossa odisseia privada. Muda-se a individualidade e assim se influencia outros a terem coragem de seguir os mesmos passos, é do um que surge a multiplicidade numérica, é do indivíduo que surge a coletividade, é da mudança primária que existe a verdadeira revolução. Não a briga que subjuga, mas a paz que perdoa sem olhar a quem, sem visar alguma espécie de lucro particular.

Visamos o lucro do triunfo pela proteção do que é “nosso”, pela separação do nosso eu do mundo. É raro existir um casal, existem mais indivíduos que se juntam sem se unirem, defendendo cada um o seu lado sem se importarem com o todo uno. Quase não existem famílias, apenas laços sanguíneos entre seres que se digladiam por míseros centavos e depois apenas “amam” os entes nada queridos quando mortos. Não existe sociedade, pois quase ninguém se importa com o verdadeiro bem futuro de todos, apenas projetam o que acham que seja bom, projetam seus achismos gostosos como regra de perfeição. Gosto não é qualidade, não é a verdade que pode ser enxergada quando retiramos o véu da ilusão, é apenas o egoísmo preguiçoso que late através das bocas e rosna para outrem no intuito de proteger a estagnação. E o pior de tudo: não existe humanidade, não a humana que busca virtudes da alma, apenas míseros seres que comem uns aos outros, brutos homúnculos que bebem sangue com sorriso nos lábios.


Tudo o que nos une, acaba por ser usado como desculpa para nos separar, nos desunir. Não digo que formaríamos uma enorme ciranda social e dançaríamos até o fim dos tempos, mas sim que pudéssemos olhar para nós mesmos como um todo complementar. Somos completos enquanto indivíduos, mas também sofremos por sermos sociais, sendo isto o que nos impele a sermos suficientes em coletividade também. Respeitemos o indivíduo pelo que ele é, não pelo que demonstra ser. Somos alma em corpo que anda, somos coletividade. Não sejamos educados com as mulheres simplesmente por serem mulheres, mas com a humanidade que ali habita; não sejamos respeitosos com um homossexual, mas sim com o ser humano que ali se faz presente; não idolatremos a matéria que nos corrompe, mas sim o vazio que nos faz viver. O que cada um externa é problema de cada um.


Assim como Panku, dividimos a unidade a machadadas criando assim a dualidade, e caímos no erro de crer que entre eles existe oposição. Tudo se completa, nada se isola. É sabendo do erro que se chega ao correto; é enxergando o feio que nos aproximamos do belo; é talvez mentindo que acharemos a verdade, àquela que dói, que escancara com escárnio a nossa putrefação vívida, mas que nos eleva aonde nem sequer sonhamos chegar. Conhecereis ela e, garanto-lhes, ela vos libertará.




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